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Música, ciência e saúde · Dor

A música alivia a dor?

Um dos efeitos mais estudados. A dor relatada cai de forma pequena a moderada; o uso de analgésicos, bem menos.

11 estudos curados · Como ler a evidência

Em resumo

Música e dor é um dos temas mais pesquisados de toda a área. A maior revisão sobre o assunto, sozinha, reúne 97 ensaios clínicos e mais de 9 mil participantes, e há estudos com recém-nascidos, crianças, pacientes em cirurgia, pessoas com dor crônica e pacientes em cuidados paliativos.

O resultado é consistente na direção e modesto no tamanho. Quem recebe música costuma relatar menos dor do que quem não recebe. A explicação de como isso acontece, e o quanto o efeito muda de um contexto para outro, ainda está em aberto.

O que a pesquisa mostra

  1. Peso alto

    A dor relatada diminui, em média, pouco mais de 1 ponto numa escala de 0 a 10.

    É a conclusão da metanálise mais ampla sobre o tema, com 97 ensaios e 9.184 participantes. Os resultados variam muito de um estudo para outro, e por isso a média é uma referência, não uma promessa.

    Fontes: Lee (2016)

  2. Peso moderado

    Quando conduzida por musicoterapeuta, a redução é maior e passa do limiar usado na pesquisa clínica para considerar a melhora perceptível pelo paciente.

    Com musicoterapeuta, a queda foi de 1,5 ponto; com música gravada, de 1,1. O limiar usado é de 1,3 ponto. A diferença entre os dois grupos não chegou a ser estatisticamente significativa, e há só 10 ensaios de musicoterapia contra 87 de música gravada.

    Fontes: Lee (2016), Fidler e Miksza (2018)

  3. Peso alto

    Em cirurgia, a música reduz a ansiedade e a dor antes, durante e depois do procedimento, inclusive sob anestesia geral.

    São 92 ensaios com 7.385 pacientes adultos. O efeito sob anestesia geral é o argumento mais forte de que não se trata apenas de distração. A maior parte dos estudos tem risco de viés moderado a alto, mas o efeito se mantém nos de melhor qualidade.

    Fontes: Kühlmann et al. (2018)

  4. Peso moderado

    Na dor crônica, há efeito moderado sobre dor, ansiedade e depressão, maior quando o próprio paciente escolhe a música.

    Na dor crônica, a música escolhida pelo paciente funcionou melhor que a escolhida pelo pesquisador. Em cirurgia, o padrão foi o inverso: escolher de uma lista oferecida pela equipe funcionou melhor que a escolha totalmente livre. Quem escolhe importa, e o contexto também.

    Fontes: Garza-Villarreal et al. (2017), Kühlmann et al. (2018)

  5. Peso alto

    Em crianças, o efeito sobre a dor é médio, maior em recém-nascidos e não significativo em adolescentes.

    São 38 ensaios com 5.601 participantes de até 18 anos. O efeito foi mais claro em dor de punção, de procedimentos e pós-operatória. Em recém-nascidos, outra revisão encontrou sinais de benefício em procedimentos dolorosos, com estudos pequenos.

    Fontes: Ting et al. (2022), Hartling et al. (2009)

  6. Peso moderado

    Em cuidados paliativos, uma única sessão de 20 minutos com musicoterapeuta reduziu a dor relatada.

    Ensaio randomizado com 200 pacientes: a dor caiu 1,4 ponto a mais que no grupo controle. O grupo controle também melhorou, o que mostra o peso do ambiente e da atenção recebida.

    Fontes: Gutgsell et al. (2013)

  7. Peso moderado

    O consumo de analgésicos muda pouco.

    Várias revisões encontram a dor relatada menor sem diferença no uso de remédio. A metanálise mais ampla encontra uma redução pequena e consistente no uso de opioides. Nenhum estudo testa a música como substituta do tratamento.

    Fontes: Economidou et al. (2012), Sin e Chow (2015), Lee (2016)

  8. Peso baixo

    Ainda não se sabe bem como a música age sobre a dor.

    As explicações mais citadas são a distração, a liberação de analgésicos naturais do corpo e a regulação do estresse. Um experimento com imagem cerebral mostrou que ouvir música preferida e compor com musicoterapeuta agem por vias diferentes.

    Fontes: Fidler e Miksza (2018), Hauck et al. (2013)

O que isso não significa

  • Que a música substitui o analgésico. Todos os estudos testam a música como complemento do tratamento, nunca no lugar dele.
  • Que o efeito é igual para todo mundo. Ele varia com a idade, o tipo de dor, a forma de oferecer a música e quem a escolhe.
  • Que qualquer música, em qualquer volume e por qualquer tempo, ajuda. Os estudos usam repertório, duração e contexto definidos.

Os estudos

Ordenados pelo peso da evidência. Os resumos são nossos; os links levam ao artigo original. Use "Citar" para copiar a referência em ABNT, Vancouver ou Chicago, ou selecione várias e copie todas de uma vez.

Metanálise · 2016 · 97 ensaios · 9.184 participantes

A revisão de referência sobre música e dor. Separa música gravada de musicoterapia e encontra efeito nas duas, maior com musicoterapeuta.

  • População: Crianças e adultos
  • Modalidade: Mista
  • Peso alto

Lee JH (2016). "The Effects of Music on Pain: A Meta-Analysis." Journal of Music Therapy 53(4):430-477.

Metanálise · 2018 · 92 ensaios · 7.385 pacientes

Menos ansiedade e menos dor antes, durante e depois da cirurgia, inclusive sob anestesia geral.

  • População: Adultos em cirurgia
  • Modalidade: Mista
  • Peso alto

Kühlmann AYR, de Rooij A, Kroese LF, van Dijk M, Hunink MGM, Jeekel J (2018). "Meta-analysis evaluating music interventions for anxiety and pain in surgery." British Journal of Surgery.

Metanálise · 2022 · 38 ensaios · 5.601 participantes

Efeito médio sobre a dor em crianças, maior em recém-nascidos e mais claro em dor de procedimentos e pós-operatória.

  • População: Recém-nascidos, crianças e adolescentes
  • Modalidade: Mista
  • Peso alto

Ting B, Tsai C-L, Hsu W-T, et al. (2022). "Music Intervention for Pain Control in the Pediatric Population: A Systematic Review and Meta-Analysis." Journal of Clinical Medicine 11(4):991.

Metanálise · 2017 · 14 ensaios · 1.178 pacientes

Efeito moderado sobre dor, ansiedade e depressão, maior quando o paciente escolhe a música.

  • População: Adultos com dor crônica
  • Modalidade: Mista
  • Peso moderado

Garza-Villarreal EA, Pando V, Vuust P, Parsons C (2017). "Music-Induced Analgesia in Chronic Pain Conditions: A Systematic Review and Meta-Analysis." Pain Physician 20:597-610.

Revisão sistemática · 2014 · 17 ensaios · 1.937 pacientes

Treze dos dezessete estudos encontraram menos dor. Conclui que a música é um complemento seguro e barato do cuidado de enfermagem.

  • População: Adultos internados
  • Modalidade: Mista
  • Peso moderado

Cole LC, LoBiondo-Wood G (2015). "Music as an Adjuvant Therapy in Control of Pain and Symptoms in Hospitalized Adults: A Systematic Review." Pain Management Nursing.

Ensaio randomizado · 2013 · 200 pacientes

Uma sessão de 20 minutos, com relaxamento guiado e harpa ao vivo, reduziu a dor relatada mais que o cuidado habitual.

  • População: Adultos em cuidados paliativos
  • Modalidade: Musicoterapia
  • Peso moderado

Gutgsell KJ, Schluchter M, Margevicius S, DeGolia PA, McLaughlin B, Harris M, Mecklenburg J, Wiencek C (2013). "Music Therapy Reduces Pain in Palliative Care Patients: A Randomized Controlled Trial." Journal of Pain and Symptom Management 45(5):822-831. University Hospitals Case Medical Center, Cleveland.

Revisão integrativa · 2018 · 31 artigos

Organiza as explicações sobre como a música age na dor e mostra o quanto ainda falta compreender.

  • População: Várias
  • Modalidade: Mista
  • Peso moderado

Fidler H, Miksza P (2018). "Music interventions and pain: An integrative review and analysis of recent literature." Approaches: An Interdisciplinary Journal of Music Therapy.

Revisão de literatura · 2015 · 7 estudos

Menos dor em cinco dos sete estudos; nenhum efeito sobre náusea e vômito.

  • População: Mulheres em cirurgia ginecológica
  • Modalidade: Gravada
  • Peso baixo

Sin WM, Chow KM (2015). "Effect of Music Therapy on Postoperative Pain Management in Gynecological Patients: A Literature Review." Pain Management Nursing.

Revisão · 2012 · 6 ensaios

A dor relatada é menor com música, mas o consumo de analgésicos fica praticamente igual.

  • População: Adultos após cirurgia
  • Modalidade: Gravada
  • Peso baixo

Economidou E, Klimi A, Vivilaki VG, Lykeridou K (2012). "Does music reduce postoperative pain? A review." Health Science Journal 6(3).

Revisão sistemática · 2009 · 9 ensaios pequenos

Sinais de benefício em procedimentos dolorosos, como a punção de calcanhar, com estudos pequenos e de baixa qualidade.

  • População: Recém-nascidos
  • Modalidade: Mista
  • Peso baixo

Hartling L, Shaik MS, Tjosvold L, Leicht R, Liang Y, Kumar M (2009). "Music for medical indications in the neonatal period: a systematic review of randomised controlled trials." Archives of Disease in Childhood – Fetal and Neonatal Edition 94(5):F349-F354.

Estudo experimental · 2013

Com magnetoencefalografia, mostra que ouvir música preferida e compor com musicoterapeuta mudam a resposta do cérebro à dor por vias diferentes.

  • População: 20 voluntários saudáveis
  • Modalidade: Musicoterapia
  • Peso baixo

Hauck M, Metzner S, Rohlffs F, Lorenz J, Engel AK (2013). "The influence of music and music therapy on pain-induced neuronal oscillations measured by magnetencephalography." PAIN 154:539-547.