Pareceu um gesto generoso delas, ver um fio de felicidade no rosto de um filho entubado.
Allan e eu estávamos na UTI. Entramos próximos aos primeiros leitos, e na frente de um dos quartos estava uma pessoa do Child Life. Assim que nos viu, ela perguntou se poderia nos fazer uma indicação e solicitou nossa visita a outro paciente. Agradecemos a indicação e aproveitamos para perguntar se estava tudo bem com o paciente daquele quarto e se ela achava que poderíamos entrar lá. Ela nos disse que ele estava entubado e que a mãe preferia que não houvesse muito estímulo. Então, apenas para confirmar a informação e para que a família soubesse da possibilidade de receber a visita do Saracura, bati na porta. Assim que abri, vi que a mãe estava conversando com uma médica, e disse que voltaria depois para oferecer música.
Seguimos com a atuação nesta UTI e, depois de algum tempo, voltamos para este mesmo leito. Bati na porta e vi que havia uma fisioterapeuta atendendo o paciente. Expliquei para a mãe que estava lá para oferecer música ao filho, mas que poderia aguardar a fisio terminar seu atendimento. Neste momento, a fisio disse que já estava terminando e que poderíamos entrar. A mãe também se mostrou interessada em receber música, ao contrário do que imaginávamos, pois a Child Life havia recebido outra informação dela.
Neste momento, Allan e eu estávamos imaginando que seria uma situação de tocar canções calmas para o paciente entubado, que provavelmente não queria ser agitado.
Colocamos o avental e entramos no quarto. A mãe logo se levantou, chamou o nome do filho, falando alto, e disse: olha só, vieram tocar para você!
Com essa recepção, começamos a perceber que a interpretação que havíamos feito não correspondia à realidade. A mãe não estava preocupada em estimular o filho; ela estava, inclusive, sugerindo este estímulo, ao falar alto e tentar deixar o filho mais alerta.
Como os pacientes entubados sempre recebem algum grau de sedativos, é difícil que estejam muito acordados, mas como a fisioterapeuta havia acabado de atendê-lo, ele se mostrou um pouco acordado, fazendo esforço para abrir os olhos. A mãe ficou muito feliz e emocionada com esse esforço do filho, e começamos a tocar alguma música que não me lembro qual era, mas que era animada. Provavelmente a Fazendinha, do Mundo Bita. Neste momento, a mãe recebeu um abraço de uma outra pessoa que estava lá e que poderia ser irmã dela.
Também cantamos a música do sapo que não lava o pé, e a mãe brincou que o filho não lavava o pé e deu muita risada. Também cantamos a música dizendo que ela não lavava o pé.
As duas se divertiam muito com a música e com o fato de o menino tentar manter os olhos abertos. Elas disseram que era a primeira vez que isso acontecia desde que ele foi entubado.
Por fim, ainda cantamos o Pintinho Amarelinho, e as duas familiares presentes no quarto cantaram e fizeram toda a coreografia, durante toda a música. Depois de terminarmos essa canção, ele fechou os olhos e voltou a dormir.
Entendemos que conseguimos pegar uma janela de tempo em que ele conseguiu se manter mais desperto, mas que dali para frente seria difícil que se mostrasse disposto novamente. Sua mãe teve a mesma percepção, então agradecemos e nos retiramos.
Ao sair, conversei com Allan sobre como aquilo tudo foi inesperado. Mesmo com o aceite da mãe em receber a nossa visita, esperávamos tocar um repertório mais lento, algo que não excitasse muito a criança, que era bem pequena.
Para a mãe e a tia, também deve ter sido um momento inesperado. Percebi a surpresa da mãe quando ofereci música. Ela se mostrou perplexa e animada ao mesmo tempo. Disse: ele adora música, claro que quero!
Por outro lado, achei curioso que nem a mãe nem a tia se aproximaram muito dele. Ele estava com o rosto virado para o nosso lado, e as duas estavam no lado oposto da cama, mais próximas ao pé da cama do que da cabeça do paciente. Essa disposição e o aparente distanciamento deram a impressão de que o momento musical, ainda que realizado com repertório infantil, foi renovador e fundamental para as adultas poderem extravasar um pouco. Elas dançaram, cantaram e sorriram.
Uma possível explicação para essa disposição talvez seja uma questão de espaço, ou melhor, de falta de espaço. Como eu e Allan estávamos no lado da cama em que o paciente conseguia nos olhar, não cabiam mais outras pessoas ali. E talvez, se a mãe se aproximasse do filho pelo outro lado da cama, isso pudesse ser desconfortável para ele, que iria querer vê-la, mas teria dificuldade em mexer o pescoço. Da forma como estávamos, a mãe e a tia conseguiam ver o filho atento a nós, e isso as deixou felizes. Pareceu um gesto generoso delas, ver um fio de felicidade no rosto de um filho entubado sem precisar ser a pessoa responsável por aquele acontecimento.