Não nos apresentamos: nós musicamos junto com as crianças e familiares.
É difícil contar histórias envolvendo o Grupo Saracura e o hospital sem parecer que a música é musiquinha, e que a história é bonitinha. Por isso, vou fazer uma introduçãozinha, ou melhor, uma introdução.
A musiquinha, ops, ou melhor, a música, é na verdade um encontro entre os músicos cuidadores e os pacientes, seus familiares, e muitas vezes envolve a equipe clínica, profissionais da limpeza e outros colaboradores do hospital. Este encontro é bonitinho, ou melhor, é bonito, porque parte da disponibilidade das pessoas em se encontrarem. Aprendemos com a prática, e encontramos referencial teórico lendo e pesquisando, de que a música não é um substantivo, mas um verbo.1 O encontro musical é uma ação, e todos os presentes estão participando deste musicar, estejam cantando e tocando ou não. Por isso, os músicos cuidadores não se apresentam para os pacientes, mas fazem música com eles, de acordo com a troca que acontece neste encontro.
O repertório pode se repetir, tendo em vista que usamos como base o repertório de músicas tradicionais da infância. Frequentemente este repertório une diversas gerações através das lembranças e da memória afetiva. Mas, como acabamos de ver, não nos apresentamos: nós musicamos junto com as crianças e familiares. É como se em cada quarto que entramos formássemos uma banda com integrantes novos. Ou seja, não há repetição quando se é um músico cuidador.
Dito isso, podemos iniciar a nossa historinha. Ou melhor, nossa história. No final do mês de março de 2025 encontramos uma paciente neuropata, que vive acamada e utiliza o serviço de home care. Ela não se comunica verbalmente e praticamente não movimenta o corpo. Quando a vimos, junto de sua mãe, desconfiamos que já a conhecíamos. Conversando com a mãe, ficou claro que já havíamos encontrado esta família em outras ocasiões.
Desta vez, segundo a mãe nos disse, era uma situação mais grave, pois precisavam decidir se a filha iria realizar ou não uma cirurgia, que, como toda cirurgia, trazia riscos, além de ser um procedimento invasivo e desgastante para todos. Por outro lado, caso a cirurgia fosse um sucesso, poderia aumentar um pouco o tempo de vida daquela menina.
Após analisar bem a situação, os pais daquela paciente, que vamos chamar de Milena, decidiram que não realizariam a cirurgia, tendo em vista que ela tinha uma vida muito limitada em diversos aspectos, e que talvez fosse melhor deixar as coisas acontecerem do jeito que tinham que ser. Mesmo assim, a mãe quis ouvir música. Nos disse que a filha gostava de músicas de criança. Oferecemos a canção Peixinhos do Mar (Quem te ensinou a nadar?), emendamos na canção Peixe Vivo (como pode um peixe vivo viver fora da água fria?) e finalizamos com Pirulito que Bate Bate. Essas músicas foram realizadas olhando nos olhos da paciente, que os abria de quando em quando, e da mãe. Essa troca de olhares e o ajuste na forma de tocar as canções, adequando intensidades, andamentos e respiros, é uma das ferramentas que temos para verificar se estamos musicando em conjunto.
Cantamos essas canções por serem muito conhecidas e permitirem a todos relembrar a infância. Como já havíamos tocado para aquela paciente, com certeza estas estavam entre as canções que podemos ter cantado em outras ocasiões. Então também foi uma forma de nos reapresentar a ela. Uma forma de dizer que já nos conhecíamos e que estávamos nos reencontrando.
Na sequência começamos a tocar a canção Leãozinho, do Caetano Veloso, pois é uma canção que acabou sendo abarcada pela cultura da infância, apesar de trazer elementos musicais um pouco mais complexos que as canções ditas infantis. Quando começamos a cantar esta música, a mãe da Milena pegou o celular e começou a filmar, enquanto cantava a música junto com a gente. Cantou a música inteira. Ao término, aconteceu algo surpreendente: ela respirou profundamente, e todos fizemos um silêncio de alguns segundos.
Após esse suspiro, a mãe contou mais um pouco como aquela escolha era difícil para ela e sua família. Escutamos. Aquele momento ficou registrado, e a mãe da Milena poderá reviver aquele encontro musical nas horas em que sentir necessidade. São possíveis boas lembranças daquela internação.
O suspiro pode ter sido somente um suspiro, mas me pareceu muito mais que isso. Pareceu um momento de regulação emocional, de centramento para lidar com a situação. Algo que pode acontecer quando nos sentimos acolhidos. Depois da nossa saída, outras equipes da rede de humanização, além da própria equipe clínica, seguiram oferecendo conforto para aquela família, cada qual com suas ferramentas, habilidades e sensibilidade.
Este é um exemplo de como o musicar com os pacientes e familiares funciona como um gesto de cuidado e acolhimento.
Footnotes
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SMALL, Christopher. Musicking: the meanings of performing and listening. Middletown: Wesleyan University Press, 1998. ↩