Talvez o que mais falte nesses momentos não seja uma solução, mas uma interrupção.
Outubro de 2012. Ala de internação pediátrica de um hospital infantil de São Paulo. Não era UTI: um quarto comum, com cama, poltrona, armário, alguns brinquedos dispersos, sinais de longa permanência. Naquele dia, estávamos ali por dois motivos: o trabalho de rotina, oferecendo música à beira-leito, e a gravação de um pequeno documentário institucional, o nosso terceiro. Uma tentativa de registrar, discretamente, o que se passa nos interstícios do cuidado.
Ao entrar naquele quarto, o cenário era outro. O espaço estava desorganizado: havia uma certa bagunça física, mas também uma desordem emocional perceptível. O pai, em especial, chamava atenção. Exausto, olheiras fundas, semblante tenso. Era evidente que dormira pouco, talvez nada, por dias. Falava alto, gesticulava muito, mostrava-se insatisfeito, talvez desconfiado de tudo: da equipe, do hospital, dos procedimentos. A mãe, mais contida, acompanhava a cena em silêncio. Uma enfermeira também estava presente, recebendo as queixas do pai em silêncio.
E no centro disso tudo, a paciente: uma menininha linda, recolhida, visivelmente retraída diante do ambiente ruidoso que a cercava. Estava em si, protegida, distante.
Entramos. Como de costume, oferecemos música com voz baixa, postura receptiva, sem pressa. Por um momento, pensei que o pai fosse nos mandar sair. Ele nos lançou um olhar duro, avaliativo. Mas então respirou fundo, pareceu reconsiderar, e disse apenas:
— Tá… música. Ok. Vamos ver.
Começamos com Alecrim Dourado, depois A Casa (a engraçada, de Vinicius), e mais tarde O Pato e O Sapo. Canções simples, conhecidas, lúdicas, pensadas para convidar à brincadeira. Muitas vezes, elas abrem caminhos de participação, mesmo mínimos, com gestos, expressões ou palavras. Nesse caso, foram bem recebidas. Lembro que parte do repertório foi sugestão nossa, parte veio de pedidos deles mesmos.
A menina, antes retraída, começou a reagir. Primeiro com um sorriso. Depois, cantou. Brincou. Abraçou. Tocou. Tocou o pai, a mãe, a enfermeira. Tocou o quarto inteiro, que por um instante se reorganizou em torno dela. A tensão não desapareceu, mas pareceu ceder espaço. A energia, que antes vibrava em descontrole, encontrou outra frequência. Um outro tipo de presença se instalou.
Saímos discretamente, como sempre. E seguimos com o dia. Mais tarde, já nos corredores, enquanto gravávamos depoimentos para o documentário, o pai nos viu. Aproximou-se com certa curiosidade:
— O que é isso? O que vocês estão fazendo aqui?
Explicamos, ele assentiu, disse apenas “legal” e voltou para o quarto. Pensamos que ali se encerrava o contato.
Mas pouco depois soubemos que ele nos procurava. Fomos ao encontro dele, sem saber bem o que esperar. Dado o nível de estresse que havia demonstrado mais cedo, cogitamos desde um novo desabafo até um pedido de mais uma música. Mas foi algo diferente. Ele queria gravar um depoimento. Pediu para falar no vídeo.
O que disse ali foi simples e comovente. Não necessariamente elaborado, mas sincero. Era evidente que algo havia se deslocado dentro dele. Desde então, esse pai passou a nos acompanhar à distância. Nas raras ocasiões em que publicamos algo, um vídeo, uma notícia, uma memória, ele está entre os primeiros a comentar. Manda mensagens, expressa gratidão. Nunca foi prolixo. Mas sempre presente.
Fico pensando, às vezes, em como as situações de maior tensão tendem a se fechar sobre si mesmas. A percepção se estreita, a escuta se embota, os gestos se automatizam. E talvez o que mais falte nesses momentos não seja uma solução, mas uma interrupção. Uma abertura. Um convite ao sensível, seja ele um som, um toque, uma palavra ou um silêncio bem colocado.
Naquele dia, a meu ver, uma válvula se abriu e algo se despressurizou. Um circuito fechado nocivo se quebrou. E, no lugar do ruído, abriu-se a possibilidade de encontro, escuta e colaboração.