O que significa escutar?
Por Edmar Pereira da Costa Filho
Publicado no livro Cuidar da alma, “Uma experiência sensorial”, p. 68
Escutar é mais do que ouvir: é estar aberto à forma como o outro recebe.
Foi uma das primeiras visitas que fiz a um bebê recém-nascido num hospital infantil de São Paulo. Lembro que o caso se revelaria em camadas, ao longo do tempo, mas a primeira visita me marcou de forma definitiva, talvez justamente por tudo o que ainda não sabíamos naquele momento.
O bebê estava num quarto de internação comum, não numa UTI. Isso, à primeira vista, sugeria um caso clínico menos grave. O quarto era tranquilo, muitas vezes com as luzes baixas, e o bebê, às vezes dormindo, às vezes acordando. A mãe sempre presente. E, com frequência, também algum profissional da equipe de saúde acompanhando algum procedimento de rotina.
Apesar do ambiente clínico, havia ali uma atmosfera de acolhimento. A mãe recebia nossas visitas com entusiasmo. Havia prazer em ouvir música, em cantar. Ela mesma, às vezes, pegava o bebê no colo e cantava para ele. Outras vezes, apenas observava, encantada, como se visse o filho participar de algo que extrapolava o hospital: uma experiência sensorial, um gesto de vida cotidiana.
Essa relação seguiu por algumas visitas, até o momento em que a mãe recebeu o diagnóstico: seu filho era surdo.
A notícia caiu como um abismo. E o que mais me marcou foi o que ela disse: que tudo aquilo que vinha fazendo, cantar para ele, embalar com canções, teria sido em vão. Que ele não a ouvira. Que talvez não houvesse, ainda, conexão.
As palavras dela ressoaram fundo. O diagnóstico, mais do que uma informação médica, foi vivido como uma ruptura no vínculo. Como se o canto, esse gesto tão íntimo, tivesse perdido o sentido.
E foi esse abalo que nos levou a uma investigação mais profunda: o que significa fazer música para alguém que não ouve nos moldes convencionais? Que tipo de escuta é possível nesse contexto?
Transformamos o caso em estudo. Levamos a questão para a formação da nossa equipe. E convidamos duas pessoas para um encontro formativo: a professora Nadi Aguiar Cervellini, da PUC, pesquisadora da musicalidade na população surda, e o influenciador e ativista surdo Léo Castilho, conhecido pelas festas musicais acessíveis e pelo trabalho com a comunidade surda.
A professora nos trouxe o olhar da pesquisa: os modos como pessoas surdas percebem e constroem musicalidade por outras vias, o tato, o olhar, o corpo. Léo, por sua vez, trouxe o contraponto prático, ético, existencial: o que significa ser surdo e se relacionar com a música de forma não auditiva? O que é necessário para que um gesto musical seja inclusivo e respeitoso?
E então voltamos ao quarto daquele bebê. Voltamos com mais perguntas, mais ferramentas, mais escuta. Explicamos à mãe: sim, seu filho ouve, mas por outros caminhos. Ele ouve pela vibração do corpo, pelo toque, pelos estímulos visuais, pela pele.
Sugerimos que o segurasse no colo ao cantar, para que ele sentisse a vibração do seu peito. Que o encostasse no tampo do violão, para que ele sentisse a ressonância das cordas. Que observasse sua boca, seu rosto, seus gestos, pois ali também há música.
Não se tratava de traduzir a música para Libras, algo que, como nos alertou o próprio Léo, poderia soar artificial ou deslocado se feito sem domínio real. Mas sim de ampliar a linguagem da performance: cantar com o corpo, com as mãos, com o olhar. Fazer com que a música fosse visível, tátil, presente.
Cantamos A Dona Aranha, por exemplo, com gestos amplos e significativos. Mãos que sobem, caem, escorregam. O bebê acompanhava. A mãe, pouco a pouco, reencontrava sentido naquele gesto.
Com o tempo, ela começou a aprender Libras. Começou a se preparar para uma nova forma de comunicação. E nós seguimos acompanhando, visitando, criando repertório junto à experiência daquela família.
Esse caso nos transformou. Não só pela especificidade clínica, mas pela pergunta radical que ele nos fez: o que significa escutar?
Aprendemos que a música não é apenas som. É vibração, gesto, presença, intenção. E que escutar é mais do que ouvir: é estar aberto à forma como o outro recebe, seja com os ouvidos, com a pele, com o coração.
Talvez esse tenha sido um dos nossos encontros mais desafiadores. Mas também um dos mais profundos.