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Relatos de experiência

Oráculo

Por Daniel Guttilla Zacharias

Entre 2005 e 2009 · 3 min de leitura

A gente logo entendeu que nosso trabalho não era feito apenas com os pacientes. Era com a equipe.

Nos anos em que o hospital ainda funcionava num prédio antigo, pequeno, antes da mudança para o endereço atual, havia ali uma unidade que todos chamavam com carinho pelo diminutivo. Foi ali, entre 2005 e 2009 (ou algo próximo disso), que começamos a viver uma rotina peculiar, que hoje é quase diária: a visita musical às UTIs pediátricas.

Era um trabalho delicado, feito em território hipersensível. Levar música a uma UTI infantil exige mais do que protocolo, repertório ou técnica. Exige escuta, tato, sincronia. Mas, talvez ainda mais importante do que essas qualidades, é ter alguém por perto que conheça profundamente o terreno, alguém que funcione como uma ponte entre o que se pode oferecer e o que se pode receber. E, naquela unidade, uma dessas pontes era uma enfermeira.

Ela era enfermeira, mas era também muito mais do que isso: um tipo de anfitriã da vida cotidiana daquela UTI. Tinha um jeito expansivo, riso fácil, fala firme. E era ela quem, quase sempre, nos recebia. Literalmente nos abria a porta. E, de forma simbólica, abria também os caminhos dentro da UTI: conhecia os cuidadores, os pacientes, as famílias, o clima de cada quarto e cada uma das mínimas nuances do dia.

— Esse aqui gosta do Pato! — dizia, referindo-se a um menino que fazia gestos com a mão quando ouvia a música. — Essa outra vai gostar do Alecrim. Canta com a avó.

Brincando, ela dizia que prescrevia Saracura. E suas “prescrições” não eram nada aleatórias. Ela sabia exatamente a quem estava indicando o quê, porque estava ali todos os dias, o tempo inteiro. Acompanhava os processos, os humores, as crises e os alívios. Sabia quem podia receber uma canção naquele dia, quem precisava de silêncio, quem talvez se beneficiasse de uma melodia quase imperceptível, à porta do quarto. Sua sensibilidade era fruto de convivência. E nos guiava.

Mesmo nos quartos em que o prognóstico era delicado, ou o desfecho já se esboçava como inevitável, ela fazia questão de nos orientar. Não entrava conosco, mas preparava o caminho. Nos passava o tom, o contexto, os limites. E confiava.

Dizia sempre, com entusiasmo inconfundível:

— Vocês não fazem ideia do poder que têm! A música pode mudar tudo aqui! O ambiente se transforma! Mas, se vocês não sabem, eu sei! Então vem comigo, deixa comigo que eu levo vocês!

E levava mesmo.

A experiência naquela pequena unidade foi uma grande lição sobre o entrelaçamento entre gente e cuidado, entre presença e confiança. Porque a gente logo entendeu que nosso trabalho ali não era feito apenas com os pacientes. Era com a equipe. Com as pessoas que viviam aquele cotidiano de beira-leito, que suportavam o peso das rotinas, das perdas, das conquistas discretas. Tocávamos para os pacientes e familiares, sim, mas também para as enfermeiras, médicos, técnicos, fisioterapeutas. Para ela.

Talvez ela nunca tenha sabido que tocar para a equipe passou a fazer parte do nosso protocolo. Mas pedia sua música com naturalidade, como quem pede um café depois de um turno longo. Era um gesto de reconhecimento mútuo. Ela pedia, nós tocávamos. E, por alguns minutos, aquela UTI ganhava um outro tempo. Um tempo suspenso, em que o afeto e o cuidado se revezavam de forma indistinta para reconectar as pessoas sob a forma do musicar.

A unidade tinha ares de clínica. Era pequena, acolhedora, e formava uma comunidade que se via todos os dias: profissionais, pacientes, famílias. Havia uma intimidade ali, construída na convivência, na repetição, na partilha das dores e dos pequenos milagres do cotidiano.

Esse relato, portanto, não é sobre um caso específico, nem sobre um episódio isolado. É sobre uma relação. Sobre uma parceria silenciosa entre os artistas-cuidadores e as outras equipes de cuidado. E sobre o reconhecimento de que, por trás de cada quarto, cada diagnóstico, cada gesto técnico, há uma rede de afeto e escuta, e que o musicar, quando entra nessa rede, pode fazer mais do que aliviar ou distrair: pode cuidar.