Natal presente
Por Daniel Guttilla Zacharias
Publicado no livro Cuidar da alma, p. 132
Finalmente fomos vistos.
Manhã de 25 de dezembro de 2024. Era Natal, e o hospital, como em qualquer outro dia, estava em pleno funcionamento.
Mas naquele ano, algo foi diferente.
Nós nos mobilizamos para atuar no hospital naquele dia, nas suas duas unidades, não apenas como um gesto simbólico ou protocolar, mas como um movimento necessário. Porque exatamente um ano antes, no dia 25 de dezembro de 2023, minha irmã, que também é uma das fundadoras do Saracura, estava ali. Mas do outro lado do cuidado.
Na ocasião, ela passava o dia 25 internada com a filha, minha afilhada, que se recuperava de uma cirurgia. A experiência foi difícil. Dor, noites mal dormidas, isolamento. O hospital funciona plenamente no Natal, sim, mas em modo mínimo. E naquele dia, como é comum nesta data, não havia a música do Saracura, nem os palhaços, nem atividades de descompressão disponíveis.
E foi esse o vazio que ficou marcado.
Depois que tudo passou, a cirurgia, a recuperação, o retorno para casa, minha irmã não esqueceu. Ao contrário, ela insistiu.
Precisamos tocar no dia 25. Precisamos estar lá.
A proposta foi feita ainda em abril, numa das reuniões do grupo de humanização do hospital. Com tempo suficiente, pudemos articular tudo até dezembro: autorizações, logística, segurança. A ideia foi discutida e, depois de um tempo, o escopo ficou claro: não faríamos uma visita musical convencional. Não circularíamos aleatoriamente. Escolheríamos quartos específicos, previamente sondados pela liderança, como casos de longa internação e famílias já próximas do Saracura, entre outros critérios. Evitaríamos qualquer sensação de exclusão. E, além disso, tocaríamos também nos postos de recepção, de enfermagem, na rouparia e nas áreas administrativas.
E assim foi.
Visitamos os quartos selecionados pela nossa coordenadora e tocamos para os pacientes. Depois fomos passando pelos postos e áreas de serviço. Levamos canções natalinas e, para as equipes de cuidado, uma música nossa, composta especialmente para a ocasião: Quem é?, um tributo àqueles que estão ali dentro, de plantão, a toda hora, cuidando do hospital enquanto o mundo celebra lá fora.
O que nos marcou naquele dia foi a surpresa. Não exatamente no sentido literal: afinal, era Natal, e uma ação diferente se justificava. Mas talvez no sentido emocional. O inesperado reconhecimento. O ser notado e contemplado. E o ambiente, por instantes, deixava de ser puramente técnico e voltava a ser humano, justamente num dia em que o mundo inteiro celebra esses valores.
Uma colaboradora, em especial, nos recebeu com lágrimas e abraços. Disse que nunca tinha se sentido tão acolhida num dia de Natal. Cantou conosco.
Chorou. E agradeceu.
Por coincidência, ou talvez não, duas emissoras de televisão estavam presentes naquele dia: SBT e Band. Ficaram sabendo e foram até o hospital registrar a ação, e ali encontraram mais do que esperavam. Viram algo realmente vivo, pulsante. Um gesto que não se limitava ao simbólico.
Encerramos a jornada no subsolo, nas áreas administrativas. Tocamos para as equipes que se autodenominaram “invisíveis”: os que não estão no corredor, nem na ponta do cuidado direto, mas que sustentam a estrutura. A música chegou até eles. E a resposta veio espontânea. Cantaram, dançaram, sorriram. Comentaram entre si:
— Finalmente fomos vistos.
Essa talvez tenha sido a frase que definiu o dia. Porque o cuidado hospitalar, em sua complexidade, não se resume a técnicas ou diagnósticos. Ele se sustenta também no afeto, no reconhecimento, na possibilidade de ser visto e, quem sabe, ouvido.
O Natal no hospital não deixou de ser um dia normal. Mas, por alguns minutos, tornou-se extraordinário. E talvez seja isso o mais importante: não transformar tudo em espetáculo, mas lembrar que mesmo as rotinas mais comuns podem ser atravessadas pela delicadeza e pelo zelo. E que o simples gesto de tocar uma música, se feito com cuidado técnico, escuta e intenção, pode redesenhar o ambiente. Reverter o peso. Realinhar os afetos.
E dar sentido não apenas ao calendário, mas ao estar com, mesmo quando tudo ao redor é rotina dentro de um hospital no dia de Natal.
Tanto para quem está sendo cuidado quanto para quem está cuidando.