Basta tocar o violão no quarto e rola todo um relaxamento da criança.
Fomos tocar em um quarto de UTI para uma bebê bem pequena. Voltamos lá algumas vezes para tocar. Ela era bem pequena até mesmo para a sua idade e, sempre que íamos, havia pouca interação, pois estava quase sempre dormindo ou sedada.
Como circulamos por diversos andares da unidade e somos divididos em algumas duplas de músicos em diferentes dias, aconteceu de eu ficar um tempo sem voltar a tocar para essa paciente.
Passou mais ou menos um mês e eis que um dia li o nome na porta do quarto em que ia entrar: era ela, a Lia (nome fictício). Entramos e, como sempre fazemos, conversamos com a mãe, tocamos algumas músicas, e a menina estava superacordada e espertinha. Quando já estávamos nos despedindo, de maneira espontânea falei:
— Nossa, como ela cresceu, né?
Então a mãe ficou bastante emocionada e disse:
— Você acha? Que bom! A Lia precisa ganhar peso, por isso estamos aqui. Foi a melhor coisa que eu poderia ouvir hoje!
Essa observação despretensiosa inaugurou toda uma relação dessa família e dessa paciente comigo. Importante ressaltar que nós, do Saracura, não temos acesso ao diagnóstico de nenhum paciente.
O que posso dizer é que, a partir desse dia, se estabeleceu uma relação muito especial com a Lia, com sua mãe e com seu pai. Eles são de longe, de outra região do país, e se revezam para ficar com a filha mais velha, que mora lá, e com a Lia aqui. Muitas vezes tocamos no quarto com um dos pais numa ligação de vídeo no celular, do outro lado do país. É emocionante.
Daqui a pouco vão se completar dois anos que tocamos para eles. E tanta coisa aconteceu nesse período que é quase difícil descrever aqui de maneira breve. Lembro que no começo tocávamos muito A barata diz que tem, Só quero um xodó, Esperando na janela. Com o tempo fomos nos conhecendo melhor e o repertório aumentou.
Com a recorrência, Lia foi ficando cada vez mais tranquila com nossa presença, pois sabia que naquele momento só iria acontecer música, ou seja, nenhum procedimento hospitalar, ninguém iria mexer nela. Basta tocar o violão no quarto e rola todo um relaxamento da criança. Ganhamos tanto a sua confiança que ela já olha para fora do quarto aguardando nossa entrada enquanto vamos vestir o avental.
Da mesma maneira, existe um carinho recíproco dessa família conosco, músicos, além do reconhecimento da importância do nosso trabalho. Muito especial.
Claro que acompanhamos momentos difíceis dessa caminhada da Lia e de sua família, e a preocupação dos pais quando algo não ia bem. Lia e sua família são muito guerreiros e têm superado todas as dificuldades inerentes a essa jornada.
Um dia experimentamos uma música nova. Chama-se Viro, vira, virou, do grupo Triii. Essa música tem uma coreografia que aprendi com uma aluna minha e comecei a fazer para a Lia. Virou um hit! Mas não só. Médicas, enfermeiras e fisioterapeutas entraram na jogada e aprenderam a fazer a dança juntos. É um momento bem feliz para todos nós; vira uma festa aquele quarto. Acredito que toda a equipe do Saracura criou um vínculo especial com eles.