A descoberta da música
Por Mariana Zacharias
Publicado no livro Cuidar da alma
Apresentamos em primeira mão um mundo novo. Um mundo além dos portões do hospital.
Esta história começou na antiga unidade do hospital, onde o Grupo Saracura nasceu. O primeiro dia em que uma dupla de músicos profissionais tocou no hospital foi em um Dia das Crianças, apenas no pronto atendimento. Com o passar das semanas fomos chamados para tocar nos andares de internação e, por fim, na UTI.
Lembro de uma enfermeira comentar que seria muito importante levarmos as visitas musicais à Unidade de Tratamento Intensiva, porque na UTI do hospital havia crianças que, por conta de seu quadro clínico, eram moradoras e residiam lá havia alguns anos. Algumas delas não tinham mais contato com familiares e eram moradoras permanentes da UTI.
Hoje vou relatar o caso do Rafael (nome fictício). No ano de 2006 começamos a realizar estas visitas de rotina na UTI. Todos os finais de semana íamos cantar e tocar para ele. Ele era uma criança acamada, com pouca mobilidade, mas era atento e curioso. Quando tocamos a primeira vez ele parecia ainda não se conectar com a música, não sabia ao certo o que era aquilo. Chegamos bem perto do seu leito com todo o equipamento de proteção individual e ali apresentamos em primeira mão um mundo novo. Um mundo além dos portões do hospital, o mundo da música. O encantamento aconteceu!
Rafael começou a reconhecer padrões e interagir com a música. Emitia sons, se movimentava e sorria. Aos poucos começamos a identificar as músicas que ele mais gostava. Tinha semanas que repetíamos a mesma música duas ou três vezes, porque ele se fazia entender, queria que tocássemos novamente. Com o tempo, a equipe de enfermagem do hospital, vendo o interesse dele pela linguagem musical, adquiriu um pequeno rádio que colocaram ao lado da cama dele.
Virou um ritual. Quase todas as manhãs as enfermeiras ou a equipe responsável ligavam o rádio ao lado da cama de Rafael. Ele se acalmava, dava risada e sentia a presença da música. Quando os músicos chegavam, no dia da visita, a equipe desligava o rádio e nós seguíamos cantando a música ao vivo.
Com o tempo Rafael foi crescendo, e acompanhamos a mudança do gosto musical dele. Ele já não queria mais ouvir as mesmas músicas. Adaptamos o repertório e seguimos cantando músicas do cancioneiro popular e da nossa MPB.
Em 2010 Rafael e outras duas moradoras, que também eram residentes do hospital, foram transferidos para o novo prédio. Rafael já era um adolescente e seguia gostando das músicas. Mesmo nos dias em que estava sedado, as enfermeiras incentivavam que tocássemos para ele: sabiam que de alguma forma a vibração da música chegaria até ele.
Tocamos para ele até a sua partida. Me emociono escrevendo estas palavras, porque participamos da vida dele em tantas etapas. Vimos ele crescendo, sorrindo, emitindo sons, brincando, vivendo. Mesmo em condição tão restrita e adversa, pudemos trazer um novo conhecimento, um novo gosto, um novo olhar, um novo sentido, um novo universo, através da presença e da música. Hoje Rafael deve estar em uma estrela bem brilhante no céu, com sinos suaves, acordes de violão e melodias especiais, como ele.