O quarto do Nino
Por Edmar Pereira da Costa Filho
Publicado no livro Cuidar da alma
Há quartos que não se atravessam com pressa.
Não lembro o ano exato, mas devia ser por volta de 2018 ou 2019. Estávamos no hospital, em uma das alas de internação pediátrica — e por vezes também na UTI. Ali vivia o Nino. Ou melhor: ali estava o Nino, um menino que, por muito tempo, fez daquele hospital o seu mundo.
Nino era um paciente de longa permanência, submetido a um procedimento invasivo, crônico, desgastante. E mesmo assim, Nino sorria.
Sorria muito.
Talvez por causa da sua natureza, talvez pelo modo como seus pais — especialmente a mãe, que estava quase sempre presente — criaram um ambiente positivo ao redor dele. O quarto do Nino não era um quarto comum. Era um espaço vivo. Um cenário de histórias.
A cada visita, sabíamos que não se tratava de um momento breve. Estar com o Nino exigia tempo, disposição e entrega. Havia uma liturgia própria naquele quarto. Um tipo de rito musical e lúdico que se repetia, mas nunca da mesma forma.
O Nino colecionava bichos de pelúcia. Muitos. E cada bicho pedia uma música. Não necessariamente uma canção única para cada um, mas uma música adaptada, uma narrativa que incluísse o bicho, seu nome, sua função naquele pequeno universo doméstico-hospitalar. A mãe participava da brincadeira. Os pais integravam o enredo. A cada entrada, era como se o músico tivesse que aquecer antes — preparar corpo, voz e imaginação para acessar aquela dimensão simbólica construída com tanto carinho.
Era uma performance. Mas também era um reencontro. Havia expectativa, havia memória. O quarto do Nino pedia algo que ia além do entretenimento: exigia inventividade, frescor, sensibilidade. Não se podia repetir uma história sem cuidado. Era preciso reinventá-la, sem romper o ritual.
Às vezes, Nino não estava bem. E a música era para os pais. Às vezes, o músico entrava sozinho, sem o parceiro habitual, e precisava resgatar, no meio da visita, todos os códigos da narrativa: quais bichos participavam, que histórias já tinham sido contadas, qual canção tinha mais força naquele dia.
O quarto do Nino exigiu da equipe Saracura uma reorganização interna. Começamos a registrar, repassar entre nós os “prontuários musicais”, por assim dizer. Era preciso que, mesmo quando outra dupla estivesse de plantão, a qualidade do encontro se mantivesse. O Nino precisava disso. Os pais, também. A ausência de uma visita era sentida como um vazio. Eles pediam. Esperavam. Às vezes solicitavam a presença do Saracura para o dia seguinte. E o hospital ou a equipe de humanização fazia o possível para atender.
Esse caso também ampliou nossa escuta sobre o papel da visita musical: ela era apenas mais uma ação entre muitas? Ou, em certos contextos, tornava-se o eixo em torno do qual girava o dia de uma família inteira?
Acompanhamos o Nino por muito tempo. Quando ele teve alta, houve festa. Um tipo de celebração íntima — como o fim de uma longa travessia. Os laços não se romperam. A família seguiu em contato com alguns músicos. Houve convites para aniversário. Mensagens. Gratidão. Memória.
Olhar para o caso do Nino é também refletir sobre o que constitui uma intervenção significativa: não basta dominar repertório. É preciso sustentar uma presença inventiva, afetuosa, disponível. A música não era apenas distração. Era modo de estar. De suportar. De prolongar o brincar quando o corpo não podia mais correr, pular ou explorar.
E tudo isso nos ensinou sobre gestão do tempo, da atenção, da escuta em equipe. Aprendemos que há casos que pedem mais. Que há quartos que não se atravessam com pressa. Que há vínculos que se constroem música por música, história por história.
E que há crianças como Nino, que transformam um hospital inteiro num lugar onde o brincar resiste.