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O aperto de mão

Por Daniel Guttilla Zacharias

Por volta de 2010 · 3 min de leitura

Publicado no livro Cuidar da alma, p. 112

Pela primeira vez, desde que tudo começou, eu senti o meu filho vivo.

Não saberia dizer exatamente quando aconteceu, talvez em 2010, talvez em 2011, mas lembro do lugar com nitidez: a UTI de um hospital infantil de São Paulo. Era meio do ano, penso eu. A data exata se perdeu, mas o encontro permaneceu.

O apertado quarto da UTI, naquela manhã, estava inusitadamente cheio. Pais, avós, a família reunida em torno do leito de uma criança. O ambiente, embora organizado, carregava uma tensão contida. O menino, deitado, sedado, estava completamente imóvel. Havia algo de absoluto em sua ausência de resposta: uma quietude não apenas física, mas de presença. Olhos abertos, mas o olhar inerte e distante. Ainda assim, havia ali um cuidado intenso, quase reverente. Mãos repousavam sobre ele, como se procurassem mantê-lo ancorado, mesmo no silêncio, mesmo na inconsciência.

Foi nesse contexto que entramos, eu e Felipe, para oferecer música. Notamos o contexto e fizemos a proposta com cautela. A família consentiu.

Antes mesmo da primeira nota, percebemos um movimento. O menino, embora aparentemente inconsciente, apertava discretamente a mão da mãe, repetidamente. Era assim que se comunicavam: um aperto único significava “sim”; dois ou mais, “não”. E o gesto, naquele momento, era inequívoco: não. A mãe, com voz tranquila, explicou-lhe quem éramos e por que estávamos ali. Ele cessou os apertos.

Começamos com uma canção simples: A Dona Aranha. Tocamos em volume baixo, respeitando o ritmo do quarto. Ao final, houve um momento de silêncio, seguido por palmas discretas. A mãe, então, perguntou:

— Você quer mais uma?

Um único aperto de mão.

Sim.

Foi um sim discreto, mas eloquente. Não era apenas uma aceitação da música, mas talvez uma abertura, ainda que mínima, ao mundo externo, que até então parecia suspenso. A mãe se emocionou. Havia, naquele gesto, algo de inédito desde o início da internação. O menino, segundo ela, não vinha respondendo assim, mesmo a iniciativas que não fossem estritamente clínicas. Era a primeira vez, em horas talvez, que expressava desejo. E o desejo, por menor que seja, é um sinal potente de presença.

Tocamos outras canções. Houve poucos diálogos, mas muitos olhares, gestos, acalantos entre os familiares, pequenos ajustes de postura. A música tornou-se um canal de integração: entre ele e a família, entre ele e nós. Quando, mais tarde, anunciamos a última música, a mãe perguntou novamente. Outro aperto único.

Sim.

Saímos do quarto. No corredor, o pai nos alcançou. Estava comovido, mas contido:

— Vocês não fazem ideia do que acabaram de nos proporcionar. Esse momento era o que a gente estava esperando há horas, horas que parecem anos. Pela primeira vez, desde que tudo começou, eu senti o meu filho vivo. Obrigado!

Continuamos nosso trabalho, mas a cena seguiu conosco. Horas depois, ao passarmos novamente pela UTI, uma das enfermeiras comentou que, desde a nossa passagem, ele deixava que se aproximassem sem se agitar. Havia se tornado, de alguma forma, mais acessível, mais disposto.

É impossível afirmar o que, exatamente, se passou ali, se houve um deslocamento clínico, emocional, ou ambos. Mas naquela tarde, através do musicar e de um simples gesto, um aperto de mão, algo foi restaurado. Não um milagre, tampouco uma recuperação. Mas uma presença. Um despertar.

Um sim.