Mesmo nos momentos mais difíceis, há espaço para o amor, a arte e a conexão.
Nunca soube exatamente qual era a condição de saúde do Juca, mas lembro que ele ficou internado na UTI por meses. Nesse tempo, nossa relação com a família foi se estreitando cada vez mais. Era um quadro delicado, mas Juca e sua família tinham um carisma contagiante. Eles tinham uma energia que fazia com que a gente quisesse estar perto, compartilhar aquele momento com eles.
Pelo que me lembro, moravam no interior, numa chácara ou sítio. Juca adorava os animais, os bichos todos tinham nome, e sempre que falava deles seus olhos brilhavam. Era comum tocarmos músicas que falavam de bichos para ele. Seu pai também era músico e sempre trazia o violão consigo. Ele tinha composto uma música especial para o Juca, e não demorou para que virasse um “hit” no hospital. Nós aprendemos a letra, e toda vez que fazíamos a visita, cantávamos juntos. Aos poucos, toda a equipe foi se envolvendo, e aquele momento musical virou parte da rotina.
Infelizmente, o quadro do Juca foi se agravando. Quando parecia que não havia mais esperança, a família tomou uma atitude que me marcou profundamente: passaram a celebrar ainda mais a vida do Juca. Era como se cada dia fosse um aniversário. Tinham balões, música, sorrisos, pequenas festas improvisadas no meio de um ambiente que, para muitos, poderia ser apenas de tristeza. Achei aquele gesto de uma enorme maturidade e força por parte da família: celebrar e aproveitar cada instante com muita presença.
E não foi só a família que fez isso. Toda a equipe se envolveu para criar um ambiente acolhedor para eles. Era bonito ver como cada um encontrava uma forma de contribuir, de tornar aquele espaço mais leve, mais humano. Não era só o atendimento clínico, era um cuidado que ia além.
São essas experiências que ficam com a gente. Mesmo nos momentos mais difíceis, há espaço para o amor, a arte e a conexão. Juca, com sua luz e sua música, segue vivo na memória de todos nós que tivemos a sorte de conhecê-lo.