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A canção da mãe

Por Samuel Guibson

2024 · 2 min de leitura

Publicado no livro Cuidar da alma

Aquelas canções que ela cantou foram para nós também.

Na primeira vez que estivemos no quarto, uma semana antes, quem nos recebeu foi a avó materna. O menino seguia sedado e, no final da visita, a avó entoou um louvor com uma voz tão bela e firme que tentei acompanhar no violão, sem muito sucesso. Sua voz preenchia o quarto de uma forma especial, e eu imaginei que ela tivesse alguma relação com a música.

Nesta segunda visita, o menino continuava entubado e desacordado, e encontramos os pais. Conversamos um pouco e logo confirmamos o que eu suspeitava: a avó e a mãe tinham um vínculo forte com a música.

Começamos tocando “Estrela”, de Gilberto Gil. Adriana (minha dupla no Saracura) assumiu a melodia principal, e eu fiz uma segunda voz uma terça acima. Foi um daqueles momentos em que a harmonia parece tocar não só os ouvidos, mas o coração das pessoas. A família se emocionou. Em seguida, tocamos “Paciência”, na interpretação de Lenine. Aos poucos, o clima do quarto se transformava: os pais, que antes pareciam ansiosos, começaram a respirar mais devagar, e seus olhares se voltaram completamente para aquele momento presente.

Então, algo inesperado aconteceu. A mãe pediu o violão. Como o quarto não estava em isolamento, entreguei o instrumento a ela. Seus dedos encontraram as cordas com naturalidade, e ela começou a cantar uma canção que havia composto para o filho. Foi um instante de pura entrega. Todos no quarto estavam atentos, sorrindo, conectados por aquela melodia que era esperança e amor.

Sem interrupção, ela seguiu com um louvor. Dessa vez, eu conhecia bem a letra: nasci em um lar evangélico e aquela canção fez parte da minha infância. Apesar de não seguir essa religião, senti que aquele era um momento de conexão genuína, que transcendia crenças individuais. Então, me entreguei e comecei a cantar a segunda voz.

Muitas vezes nos deparamos com encontros inesperados nas visitas, mas esse foi especial. Foi um momento de conexão, troca e afeto, em que a música se fez o fio condutor. Aquelas canções que ela cantou foram para nós também. E, ao sair do quarto, senti que algo em mim havia mudado. Para nós e para eles.

Naquela tarde de domingo, a música fez aquilo que ela faz de melhor: acolheu, conectou e nos transformou, ainda que por instantes. A cada visita, aprendemos mais sobre a força da música no ambiente hospitalar.