Aquelas canções que ela cantou foram para nós também.
Na primeira vez que estivemos no quarto, uma semana antes, quem nos recebeu foi a avó materna. O menino seguia sedado e, no final da visita, a avó entoou um louvor com uma voz tão bela e firme que tentei acompanhar no violão, sem muito sucesso. Sua voz preenchia o quarto de uma forma especial, e eu imaginei que ela tivesse alguma relação com a música.
Nesta segunda visita, o menino continuava entubado e desacordado, e encontramos os pais. Conversamos um pouco e logo confirmamos o que eu suspeitava: a avó e a mãe tinham um vínculo forte com a música.
Começamos tocando “Estrela”, de Gilberto Gil. Adriana (minha dupla no Saracura) assumiu a melodia principal, e eu fiz uma segunda voz uma terça acima. Foi um daqueles momentos em que a harmonia parece tocar não só os ouvidos, mas o coração das pessoas. A família se emocionou. Em seguida, tocamos “Paciência”, na interpretação de Lenine. Aos poucos, o clima do quarto se transformava: os pais, que antes pareciam ansiosos, começaram a respirar mais devagar, e seus olhares se voltaram completamente para aquele momento presente.
Então, algo inesperado aconteceu. A mãe pediu o violão. Como o quarto não estava em isolamento, entreguei o instrumento a ela. Seus dedos encontraram as cordas com naturalidade, e ela começou a cantar uma canção que havia composto para o filho. Foi um instante de pura entrega. Todos no quarto estavam atentos, sorrindo, conectados por aquela melodia que era esperança e amor.
Sem interrupção, ela seguiu com um louvor. Dessa vez, eu conhecia bem a letra: nasci em um lar evangélico e aquela canção fez parte da minha infância. Apesar de não seguir essa religião, senti que aquele era um momento de conexão genuína, que transcendia crenças individuais. Então, me entreguei e comecei a cantar a segunda voz.
Muitas vezes nos deparamos com encontros inesperados nas visitas, mas esse foi especial. Foi um momento de conexão, troca e afeto, em que a música se fez o fio condutor. Aquelas canções que ela cantou foram para nós também. E, ao sair do quarto, senti que algo em mim havia mudado. Para nós e para eles.
Naquela tarde de domingo, a música fez aquilo que ela faz de melhor: acolheu, conectou e nos transformou, ainda que por instantes. A cada visita, aprendemos mais sobre a força da música no ambiente hospitalar.