Aulas de violão dentro do hospital
Por Mariana Zacharias
Publicado no livro Cuidar da alma
Mesmo passando por momentos desafiadores de saúde, é possível ter novos interesses e aprendizados.
O Saracura faz parte da cultura do hospital: estamos lá há quase 20 anos! Neste período vimos crianças recém-nascidas crescendo, se tornando adolescentes e adultos. Crianças e famílias gostando de música, crianças aprendendo a cantar e tocar instrumentos.
Esse é o caso da Gabriela, e esse é um nome fictício.
A Gabi era uma paciente crônica, já estava internada no hospital havia alguns meses.
Não sei dizer exatamente a idade dela, porque o Grupo Saracura não tem acesso a prontuário dos pacientes, idade, caso clínico. Gabriela era pré-adolescente. Isso bastava para pensarmos em alguma música de que ela poderia gostar. Era uma criança muito esperta, inteligente e atenta. Logo que recebeu a visita do Saracura, ficou encantada com os instrumentos e as melodias das músicas que apresentamos.
Logo apresentamos a música do Ma-ne-pi-po-ca, um trava-língua divertido. Ela adorou! Pegou um caderno e escreveu Manepipoca. Na semana seguinte voltamos para vê-la, e ela já sabia cantar a música toda.
Começamos a fazer as intervenções musicais com mais frequência no leito dela, uma ou duas vezes na semana… Logo na semana seguinte Gabriela já sabia cantar a música de frente para trás, de trás para frente, misturando as sílabas. Era incrível! Cheia de brilho nos olhos.
Com o tempo o Saracura foi trazendo novas músicas, novas brincadeiras cantadas e novas histórias. Gabriela foi se encantando cada vez mais pela linguagem musical e pelo violão. O encantamento foi tamanho que logo a menina pediu um violão de presente aos pais. A família deu o violão enquanto ela estava no hospital, e Gabi começou a fazer aulas com um professor particular, que a família contratou para ir semanalmente ao hospital.
Essa história me marcou muito, porque tem muitos elementos para a gente refletir. Sobre esta menina começar a se envolver com a música e criar interesses novos dentro do hospital; ganhar conhecimento, criar novas memórias. Descobrir que, mesmo passando por momentos desafiadores de saúde, é possível ter novos interesses e aprendizados.
Nunca mais tive contato com essa paciente. Mas, independentemente de onde ela estiver, vai sempre se lembrar da música ao vivo que a tocou e a fez tocar no hospital.